Brasília – 19/01/2026, 21h26. A queda do Banco Master, liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro após suspeitas de fraudes de aproximadamente R$ 12 bilhões, expôs um esquema de influência articulado pelo ex-controlador Daniel Vorcaro em órgãos dos três Poderes. Investigações da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), indicam que aliados de Vorcaro tentam limitar o alcance das apurações e preservar conexões políticas e empresariais formadas desde 2019.
Reunião no Planalto fora da agenda
O momento mais recente desse movimento ocorreu na manhã de 15 de janeiro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou, sem registro na agenda oficial, encontro no Palácio do Planalto com integrantes da equipe econômica, Judiciário e forças de investigação. Compareceram o ministro da Fazenda, Fernando Haddad; o presidente do BC, Gabriel Galípolo; o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues; o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes; e o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas.
Publicamente, o Planalto classificou a reunião como coordenação de “ação de Estado” contra o crime organizado. Nos bastidores, porém, fontes políticas e do mercado apontam que o caso Master dominou as discussões, percepção confirmada pelo novo ministro da Justiça, Wellington Lima Silva, horas depois.
Operação Carbono Oculto se conecta ao caso
Horas antes do encontro, o BC decretou a liquidação da CBSF DTVM (antiga Reag), investigada na Operação Carbono Oculto por suspeita de lavar recursos para o Primeiro Comando da Capital (PCC). A PF e o Ministério Público afirmam que a gestora mantém vínculos analisados dentro do mesmo esquema que envolve o Master.
Rede política apartidária
Segundo executivos ouvidos de forma reservada, a repercussão do escândalo se explica pelo “trânsito privilegiado” de Vorcaro. O empresário expandiu seu círculo de 2019 a 2024 em jantares do grupo Esfera Brasil, eventos fechados e encontros privados com autoridades do Executivo e do Legislativo.
Em agosto de 2023, Vorcaro promoveu festa de 15 anos da filha estimada em R$ 15 milhões. Em 2024, foi apresentado ao presidente Lula pelo ex-ministro Guido Mantega, o que consolidou sua presença em Brasília. O cunhado, Fabiano Campos Zettel, grande doador das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022, facilitou pontes com nomes da direita e do Centrão, como Ciro Nogueira (PP-PI) e Antônio Rueda (União Brasil).
Em 2025, Nogueira e Rueda teriam atuado para negociar a venda do Master ao Banco de Brasília (BRB); a operação foi vetada pelo BC por alto risco. A influência também alcançou o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e parlamentares como Hugo Motta e Arthur Lira.
Ações no Legislativo favoreceram modelo do banco
Propostas no Congresso entre 2024 e 2025 beneficiariam a estratégia de captação do Master. O PL 4395/2024, apresentado em 14 de novembro de 2024 pelo então deputado Filipe Barros (PL-PR), pretendia elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ, reforçando a sensação de segurança para investidores de CDBs.
Decisões no STF sob questionamento
Entre 2022 e 2023, decisões monocráticas dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli impediram aplicação imediata de sanções a bancos médios, permitindo expansão agressiva de instituições como o Master. Em dezembro de 2025, Toffoli assumiu inquérito sobre Vorcaro, impôs sigilo total e determinou acareação entre investigados e um diretor do BC, durante o recesso do Judiciário.
Reportagens posteriores revelaram viagem de Toffoli em jato particular, em 28 de novembro de 2025, ao lado do advogado Augusto de Arruda Botelho, defensor de diretor do Master. Também veio à tona sociedade de um irmão do ministro em resort ligado ao grupo econômico do banco.
Moraes passou a ser questionado após aparecer contrato de R$ 129 milhões entre o Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, firmado em janeiro de 2024. Os pagamentos foram interrompidos com a liquidação da instituição e não se sabe quanto foi efetivamente quitado.
Imagem: Ilustração Gazeta do Povo – com DALL-e
Conflito entre BC e TCU
O ministro Jonathas de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), abriu inspeção para apurar atuação do BC na liquidação, alegando possível extrapolação de competência. Após reação técnica, BC e TCU acordaram restringir o alcance da medida, garantindo sigilo bancário e mantendo a liquidação.
Polêmica sobre custódia de provas
Na segunda fase da Operação Compliance Zero, em 16 de janeiro, foram apreendidos 39 celulares, 31 computadores, 30 armas, R$ 645 mil em espécie e 23 veículos avaliados em R$ 16 milhões de investigados, incluindo os empresários Fabiano Zettel e Nelson Tanure. Toffoli decidiu inicialmente manter o material sob custódia do STF, contrariando protocolo da PF, que alertou para risco de apagamento remoto.
Após críticas, o ministro alterou três vezes o destino das provas até autorizar perícia da PF com participação de quatro peritos. O episódio motivou pedido de impeachment no Senado, apresentado em 14 de janeiro pelos senadores Magno Malta (PL-ES), Eduardo Girão (Novo-CE) e Damares Alves (Republicanos-DF), alegando conflito de interesses e quebra de decoro.
A Transparência Internacional Brasil defendeu, em 16 de janeiro, que a Procuradoria-Geral da República peça o afastamento de Toffoli do caso. No dia 17, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) divulgou nota afirmando que decisões do ministro geram “legítima perplexidade institucional”.
Nome que preocupa o Planalto
No Executivo, o ex-sócio de Vorcaro, Augusto “Guga” Ferreira Lima, é visto como ponto sensível. Lima participou da implantação do programa de crédito consignado CredCesta, em 2018, durante o governo de Rui Costa (PT) na Bahia, com operacionalização inicialmente pelo Master. A proximidade com o senador Jaques Wagner (PT-BA), articulador do Planalto, eleva a preocupação de que investigações revelem respaldo político ao crescimento do banco.
Próximos passos
O STF avaliará pedido da PF para abrir inquérito sobre suposta campanha de influenciadores que atacaram o BC após a liquidação do Master. Investigadores suspeitam de atuação coordenada por Vorcaro; ele nega. A decisão caberá a Toffoli, que segue no centro das contestações.
Com as apurações avançando e o cerco institucional se estreitando, o caso Banco Master continua a mobilizar Brasília e a expor os limites entre influência política e supervisão financeira no país.
Com informações de Gazeta do Povo
