Uma discussão acalorada marcou a sessão do Órgão Especial do Tribunal Superior do Trabalho (TST) na segunda-feira, 4 de maio de 2026. O presidente da Corte, Vieira de Mello Filho, e o ministro Ives Gandra Martins Filho trocaram críticas após a divulgação de slides de um curso pago que classificava magistrados do tribunal como “azuis” (legalistas) ou “vermelhos” (ativistas).
No início da reunião, Mello afirmou ter sido “batizado” com uma cor atribuída pelos organizadores do curso, dedicado a orientar advogados sobre como atuar no TST. “A minha causa é a defesa da instituição. Não participo de evento pago”, declarou o presidente, acrescentando que vê ameaça à credibilidade da Justiça do Trabalho.
O curso em questão contou com palestra de Ives Gandra e foi coordenado pelo vice-presidente do TST, Guilherme Caputo Bastos. Mello classificou a atividade como potencial conflito ético e concedeu a palavra a Gandra: “Vossa Excelência começou esse episódio nesse evento”, disse.
Gandra confirmou ter abordado diferenças de orientação entre os colegas, ressaltando que há ministros “mais legalistas e outros mais ativistas”. Ele se disse ofendido pela distinção feita por Mello entre “causa” e “interesse”, entendendo-a como juízo moral. “Não vi problema em participar do curso. Procurei externar a visão do que acontece no Tribunal”, afirmou.
Rótulo rejeitado e ironia “cor-de-rosa”
Mello negou autoria da divisão e ironizou: “Se há azul e vermelho, eu sou cor-de-rosa, a mistura dos dois”. O presidente sustentou que o TST sempre conviveu com divergências de ideias, “nunca com rótulos”, e questionou o direito de alguém classificar colegas dessa forma.
Referência ao “Terceiro Reich” eleva tensão
O debate se intensificou quando o ministro Lelio Bentes repudiou a suposta comparação do funcionamento interno do TST ao “Terceiro Reich”. “Não há justificativa plausível para isso”, afirmou. Gandra respondeu que apenas usou o título do livro “Por dentro do Terceiro Reich”, de Albert Speer, como metáfora para oferecer transparência sobre correntes de pensamento no Tribunal, negando analogia literal ao regime nazista.
Imagem: Aldo Dias
A ministra Maria Cristina Peduzzi lamentou o embate: “Todos aqui atuam em nome da Justiça”. Segundo ela, não há espaço para repreender colegas. Mello, porém, disse ser dever da Presidência esclarecer fatos e anunciou que enviará ofício aos ministros exigindo maior transparência em pedidos de afastamento para palestras, informando local e eventual remuneração.
O debate foi encerrado sem consenso sobre a utilização dos rótulos, mas sob a promessa de novas regras de transparência para atividades externas dos magistrados.
Com informações de Gazeta do Povo
