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Lula enfrenta Mercosul mais conservador e pressão por liderança após terremotos na Venezuela

Brasília, 29 jun. 2026 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca nesta terça-feira (30) em Assunção para a cúpula do Mercosul num ambiente regional considerado o mais adverso desde o início de seu terceiro mandato. A ascensão de governos de direita entre países do bloco e a resposta internacional aos terremotos que devastaram a Venezuela testam a capacidade de articulação do Palácio do Planalto.

Cenário político mudou em três anos

Quando iniciou o mandato, em 2023, Lula contava com maioria de governos de centro-esquerda na América do Sul. Três anos depois, eleições em Argentina, Chile, Equador e Peru alteraram a correlação de forças, reduzindo a convergência ideológica com Brasília. “O Brasil deixa de falar em nome de uma maioria e passa a operar como exceção dentro do próprio Mercosul”, avalia a analista Yolanda Tolentino, especialista pela FAAP e UFRJ.

Com o bloco decidido por consensos, temas defendidos pelo governo brasileiro – integração política, direitos humanos e agenda ambiental – tendem a enfrentar maior resistência, enquanto a ênfase deve recair sobre negociações comerciais e modernização de regras internas.

Agenda enxuta e sem bilaterais

Lula viaja ao Paraguai pela manhã e retorna no mesmo dia para participar do lançamento do Plano Safra, em Brasília. Até o momento, não estão previstas reuniões bilaterais. A cúpula deve concentrar-se no avanço de acordos com parceiros externos e na revisão de normas do mercado comum.

Resposta ao desastre na Venezuela

Os terremotos que atingiram a Venezuela transformaram a ajuda humanitária em novo termômetro de liderança regional. O governo brasileiro já enviou três voos com 71 bombeiros, um hospital de campanha operado por 48 militares da Marinha, 100 purificadores de água e mais de 111,8 mil medicamentos e insumos médicos. Analistas consideram o volume importante, porém inferior ao potencial logístico do país.

“Velocidade é fator estratégico; quem mobiliza rapidamente demonstra liderança”, afirma o consultor de relações internacionais Cezar Roedel. Para o cientista político Elton Gomes, houve disposição inicial de Brasília, mas a operação “não foi tão célere nem tão robusta quanto poderia”.

Estados Unidos, Argentina e El Salvador também despacharam equipes e suprimentos. Washington liberou pacote de US$ 150 milhões e enviou contingentes militares para apoio aéreo e hospitalar. Buenos Aires e San Salvador mobilizaram bombeiros especializados, paramédicos, cães farejadores e cargas de dezenas de toneladas.

Disputa política externa

Enquanto Lula participa da reunião do Mercosul, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, reuniu-se no domingo com o presidente argentino Javier Milei em Buenos Aires. Após o encontro, Milei afirmou esperar uma “onda azul” no Brasil, referência à cor usada pela direita sul-americana.

Para Cezar Roedel, a atual correlação de forças afeta um dos eixos de campanha de Lula, o da retomada do protagonismo global. “O PT sempre vendeu a ideia de ter política externa proeminente, mas hoje enfrenta seu momento mais difícil”, observa.

A cúpula do Mercosul será, portanto, o primeiro teste aberto desse novo tabuleiro político, no qual o Brasil busca recuperar espaço ao mesmo tempo em que lida com a cobrança por respostas mais rápidas e abrangentes à crise humanitária venezuelana.

Com informações de Gazeta do Povo

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