Estados Unidos e China intensificam o desenvolvimento de sistemas militares capazes de atuar diretamente no espaço. Documentos oficiais, dados de rastreamento orbital e entrevistas conduzidas pela agência Reuters indicam que os dois países já testam satélites que podem perseguir, inspecionar e até capturar outras espaçonaves, além de armas concebidas para interferir ou destruir alvos inimigos em órbita.
Manobras chinesas em junho
Em junho, uma nave chinesa não tripulada, mantida em sigilo, liberou um pequeno satélite a centenas de quilômetros da Terra. Segundo a empresa norte-americana de rastreamento espacial LeoLabs, o objeto orbitou outro satélite chinês antes de regressar à nave que o lançou. Detalhes da missão não foram divulgados por Pequim, mas o episódio reforçou a avaliação de Washington sobre o rápido avanço chinês em operações militares no espaço.
Os Estados Unidos operam uma espaçonave semelhante — um veículo não tripulado comparado a um miniônibus espacial — que também executa experimentos de longa duração. Ambos os programas evidenciam a mudança na forma como as potências encaram as atividades em órbita.
Capacidades em expansão
Pesquisadores ligados ao Exército de Libertação Popular da China desenvolvem satélites com recursos para perseguir e capturar outras naves, bem como sistemas de reabastecimento em voo. Patentes, registros de compras governamentais e estudos acadêmicos analisados pela Reuters descrevem algoritmos para economizar combustível durante perseguições e redes capazes de capturar alvos.
Nos EUA, o general Stephen Whiting, comandante do Comando Espacial, defende a adoção de uma postura “mais ativa de combate” em órbita, incluindo o desenvolvimento de interceptadores espaciais. Em junho, a Força Espacial revelou uma arma eletromagnética terrestre, desenvolvida pela L3Harris Technologies, destinada a desativar satélites adversários.
Operação conjunta EUA-Reino Unido
Em setembro do ano passado, militares norte-americanos, a partir de uma base no Colorado, direcionaram um satélite dos EUA para se aproximar de um satélite britânico enquanto o chinês Shiyan 12-01 passava a cerca de 83 km abaixo. A manobra, acompanhada por empresas privadas de rastreamento, foi anunciada como a primeira operação orbital conjunta entre dois membros da aliança de inteligência Five Eyes.
Autoridades britânicas afirmaram que a ação demonstrou “união e capacidade” dos aliados, embora não tenham mencionado a proximidade do satélite chinês. Pequim diz desconhecer detalhes do episódio, reafirma oposição à militarização do espaço e acusa Washington de fomentar uma corrida armamentista com projetos como o programa antimísseis Golden Dome.
Satélites na guerra moderna
Os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio confirmaram a importância de satélites para comunicação, navegação e inteligência. Para o ex-professor do Air War College Everett Dolman, a perda desses sistemas poderia paralisar a capacidade militar dos EUA em terra. Generais norte-americanos alertam que adversários tentarão atingir ativos espaciais logo no início de um eventual confronto.

Imagem: azrinaziri
Hoje, Estados Unidos, China e Rússia já operam satélites capazes de manobrar em proximidade a outras naves. Tais veículos podem ser equipados com lasers, bloqueadores eletrônicos ou projéteis. Autoridades ocidentais também acusam Moscou de desenvolver um sistema antissatélite nuclear baseado em órbita, alegação rejeitada pelo governo russo.
Órbita congestionada
O cenário de competição cresce em meio à rápida ocupação do espaço. A SpaceX mantém cerca de 11 mil satélites Starlink e planeja instalar centros de dados com inteligência artificial em órbita, enquanto a China projeta constelações próprias.
Além disso, satélites chineses já demonstraram dogfighting orbital — movimentos sincronizados de múltiplas naves —, captura de satélite desativado e, no ano passado, uma provável tentativa de reabastecimento em órbita. Embora algumas dessas tecnologias tenham aplicação civil, o jornal oficial do Exército chinês, PLA Daily, afirmou em 2022 que controlar o espaço é “essencial para a vitória em guerra”.
Com as principais potências assumindo que um futuro conflito pode começar ou se estender ao espaço, a fronteira orbital se consolida como peça central da estratégia militar global.
Com informações de Olhar Digital
