Brasília – O Palácio do Planalto adotou uma nova linha de comunicação após o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciar, na noite de 28 de maio, a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas. A medida norte-americana prevê sanções a empresas e pessoas que financiem ou mantenham relações com as facções, além do bloqueio de bens e do cancelamento de vistos de integrantes nos EUA.
Depois de quase 18 horas de debates internos, o governo brasileiro divulgou reação oficial. Em evento em Sergipe, na sexta-feira (29), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou: “Esse tal de Comando Vermelho, esse tal de PCC, eles são terroristas para as comunidades brasileiras”. É a primeira vez que Lula usa o termo “terrorista” para se referir às facções; até então, o Executivo alegava que esses grupos não tinham motivação ideológica.
Preocupação com imagem e soberania
Auxiliares do presidente reconheceram, nos bastidores, o receio de que uma resposta exclusivamente crítica aos EUA pudesse associar o governo a complacência com o crime em meio à campanha pela reeleição. A estratégia oficial passou a enfatizar a defesa da soberania nacional e a retratar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que articulou a decisão em Washington, como responsável por “interferência externa”.
Nota da Secretaria de Comunicação da Presidência classificou como “deplorável” que “integrantes da família Bolsonaro” tenham buscado apoio estrangeiro. A inclusão de Flávio no texto foi deliberada, segundo interlocutores do Planalto.
Ações de aliados
O vice-presidente Geraldo Alckmin alertou para supostos riscos de punições a “empresas de bem”, enquanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, previu redução na troca de informações entre polícias dos dois países. Houve ainda divulgação de que o sistema de pagamentos Pix poderia ser alvo de retaliação norte-americana, hipótese não mencionada por Washington.
Possíveis efeitos da decisão dos EUA
Parlamentares de oposição e especialistas em Segurança Pública apontam que a tipificação de PCC e CV como terroristas tende a ampliar a cooperação internacional, permitindo:
- rastreamento financeiro global de facções e parceiros;
- bloqueio de ativos de fintechs e bancos vinculados à lavagem de dinheiro;
- compartilhamento de inteligência com agências como CIA e DEA;
- monitoramento, por satélites e drones, de rotas de tráfico na Amazônia e em fronteiras.
Modelos anteriores citados incluem o Plano Colômbia (2000-2015) e a classificação de cartéis mexicanos como terroristas em 2025, que resultaram em sanções a empresas e investigações em dólar. Programas de prevenção ao recrutamento de jovens em países da América Central também são lembrados como referência.
Imagem: Jas Roosens
Risco de extradição e intervenção é baixo
Juristas ouvidos ressaltam que brasileiros natos não podem ser extraditados e consideram improvável ação militar dos EUA em território nacional. Eventuais punições a autoridades ligadas ao crime organizado ocorreriam via sanções econômicas ou diplomáticas.
Com o novo enquadramento, membros do PCC e do CV que atuem fora do Brasil podem responder à justiça norte-americana por terrorismo, desde que os crimes afetem interesses dos EUA.
O governo federal pretende manter o foco na narrativa de soberania para tentar conter ganhos políticos da oposição e, ao mesmo tempo, afastar acusações de leniência com o crime organizado.
Com informações de Gazeta do Povo
