O ato de tentar provocar cócegas em si mesmo quase sempre fracassa. A razão, segundo pesquisadores da University College London (UCL), está no cerebelo — região localizada na parte posterior e inferior do cérebro — que prevê a sensação gerada pelo próprio movimento e atenua o estímulo antes que ele chegue à consciência.
Experimento pioneiro
Em 1998, a neurocientista britânica Sarah-Jayne Blakemore, ao lado de Daniel Wolpert e Chris Frith, descreveu o fenômeno na revista Nature Neuroscience. O grupo montou um aparelho com um braço robótico equipado com espuma. Voluntários moviam uma alavanca com uma das mãos; esse gesto acionava a espuma, que tocava a palma da outra mão.
Sem intervalo entre o movimento e o contato, o cérebro dos participantes previa o toque e suprimia parte da sensação. Quando os cientistas introduziram atrasos graduais — chegando a cerca de dois segundos —, a percepção mudou: quanto maior o atraso, mais o toque era descrito como “cócega verdadeira”. Com o tempo suficientemente longo, a sensação se aproximava daquela provocada por outra pessoa, já que a previsão cerebral deixava de coincidir com o estímulo real.
Exames de ressonância magnética funcional confirmaram o mecanismo: na ausência de atraso, cerebelo e córtex somatossensorial apresentavam menor atividade do que quando o toque vinha de fora ou ocorria após o intervalo.
Relação com transtornos psiquiátricos
O mesmo grupo publicou em 2000, na Psychological Medicine, um estudo que comparou pacientes com esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão e voluntários sem diagnóstico psiquiátrico. Pessoas sem alucinações auditivas ou sensação de passividade mostraram a redução esperada na percepção do toque autoproduzido. Já pacientes com esses sintomas não apresentaram a atenuação, sentindo o contato interno com a mesma intensidade de um toque externo.

Imagem: KUSHEI
Os autores sugeriram que uma falha no sistema de automonitoramento — responsável por distinguir ações próprias de eventos externos — pode contribuir para manifestações como ouvir vozes ou sentir que movimentos são controlados por outra pessoa. Embora o cancelamento sensorial seja bem estabelecido, a ligação com sintomas da esquizofrenia permanece em investigação e não é considerada causa única do transtorno.
Em resumo, quando alguém tenta, sem sucesso, fazer cócegas no próprio corpo, é o cerebelo funcionando como previsto: ele antecipa o movimento e silencia parte da sensação antes mesmo que ela seja percebida.
Com informações de Olhar Digital
