O vírus Ebola permaneceu em circulação na República Democrática do Congo durante cerca de um mês antes de as autoridades de saúde proclamarem oficialmente o surto e a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar emergência de saúde pública mundial. Quando o anúncio foi feito, já se investigavam centenas de casos suspeitos e dezenas de mortes.
De acordo com informações obtidas pelo jornal The New York Times, o atraso ocorreu apesar de o país manter sistemas de vigilância epidemiológica e ter ampliado sua rede laboratorial após epidemias anteriores. Ainda assim, as autoridades da província de Ituri, onde o surto se concentra, não emitiram alerta quando os primeiros pacientes apresentaram sintomas compatíveis com a doença.
Amostras coletadas em Ituri demoraram a ser enviadas para Kinshasa, capital congolesa, onde são realizados exames mais completos. Os testes disponíveis localmente detectavam apenas a variante mais comum do vírus, a Zaire, e apresentaram resultado negativo. Somente após análises na capital foi confirmada a presença da variante Ebola Bundibugyo, considerada rara.
A médica e epidemiologista Marie-Roseline Belizaire, que coordena a resposta da OMS, afirmou que o aviso “chegou tarde demais”. Segundo a agência, houve uma lacuna crítica de quatro semanas entre o início dos sintomas do primeiro caso presumido e a confirmação laboratorial. Profissionais de saúde teriam confundido os sinais da doença com outras enfermidades.
O NYT também relatou a morte de quatro trabalhadores da saúde em um período de quatro dias no Hospital Geral de Referência de Mongwalu, cidade mineradora de ouro apontada como epicentro da epidemia. A área é de difícil acesso durante a estação chuvosa e sofre influência de grupos armados, dificultando deslocamentos e ações sanitárias.
O médico Bill Kanyenche, da organização congolesa GRACE, estima que a declaração oficial do surto deveria ter ocorrido cerca de 30 dias antes. Ele relatou que mortes com sintomas típicos passaram despercebidas por comunidades e equipes médicas.
Imagem: peterschreiber.media
Segundo a OMS, pessoas infectadas viajaram e participaram de funerais por pelo menos um mês antes da confirmação do surto. Não há vacinas nem tratamentos específicos para a variante Bundibugyo, e os testes disponíveis em campo são limitados.
Jean Kaseya, diretor do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), declarou estar em “modo de pânico” diante da situação. O Ministério da Saúde do Congo estima que a taxa de mortalidade da variante pode chegar a 50%. Há registro de apenas dois surtos anteriores de Ebola Bundibugyo: Uganda, em 2007, e Congo, em 2012.
Com informações de Olhar Digital
