Pesquisadores da Universidade de Manchester, no Reino Unido, apresentaram um modelo de planejamento de missões que incorpora o risco de colisão de satélites ainda nas primeiras etapas de projeto. O trabalho, publicado na revista Advances in Space Research, foca em missões de observação da Terra e pretende equilibrar a qualidade dos dados coletados com a preservação do ambiente espacial.
Ambiente orbital cada vez mais lotado
Hoje, estima-se a presença de cerca de 11.800 satélites ativos em órbita. Projeções indicam que esse total pode ultrapassar 100 mil até 2030. O aumento tende a elevar o risco de impactos e a gerar detritos que permanecem por décadas, ameaçando outras naves, tripulações e regiões essenciais do espaço.
Como o modelo funciona
A proposta analisa simultaneamente o desempenho da missão — como resolução de imagem e área de cobertura — e a probabilidade de colisão. Para isso, cruza variáveis como:
- Resolução necessária das imagens.
- Tamanho e massa dos satélites.
- Número de unidades na constelação.
- Distribuição de detritos em diferentes altitudes da órbita baixa (LEO).
Com a combinação desses dados, projetistas podem simular cenários e tomar decisões que reduzam a chance de acidentes sem comprometer a qualidade das informações captadas.
Constatações do estudo
O grupo concluiu que o perigo não depende apenas da quantidade de fragmentos em determinada região, mas também do porte do satélite. Em um exemplo, um equipamento projetado para gerar imagens de 0,5 metro de resolução apresentou maior probabilidade de colisão entre 850 km e 950 km de altitude — cerca de 50 km acima do pico de densidade de detritos.
Os autores destacam ainda que:
Imagem: Frame Stock Footage
- Órbitas mais altas precisam de menos satélites para cobrir a mesma área, porém cada aparelho é maior e corre maior risco individual de impacto.
- Órbitas mais baixas exigem constelações mais numerosas, mas formadas por satélites menores e potencialmente menos perigosos.
Paradoxo da sustentabilidade espacial
John Mackintosh, doutorando e autor principal do artigo, afirma que a iniciativa procura resolver o “paradoxo da sustentabilidade espacial”: satélites destinados a monitorar problemas ambientais podem, ao mesmo tempo, agravar a poluição em órbita. Para ele, considerar o risco desde o design torna o planejamento mais responsável.
A pesquisadora Ciara McGrath ressalta que o método oferece uma forma prática de manter o espaço seguro enquanto continua atendendo a demandas globais por dados. Já a professora Katharine Smith observa que o modelo pode ser adaptado a diferentes tipos de sistemas e futuramente incluir fatores como o tempo de permanência dos detritos e os efeitos da reentrada.
O estudo reforça a necessidade de integrar segurança orbital e desempenho técnico antes do lançamento, em um momento em que a quantidade de satélites deve crescer de forma exponencial nos próximos anos.
Com informações de Olhar Digital
