Brasília – As relações entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump atravessam a fase mais tensa desde a volta do republicano à Casa Branca. Em apenas três semanas, medidas diplomáticas e comerciais impulsionaram novos atritos e puseram fim ao breve período de aproximação iniciado no fim de 2025.
Expulsão de delegado abre crise
Na segunda-feira, 20 de abril de 2026, Washington determinou a expulsão do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho. De acordo com o Departamento de Estado, o policial teria participado da detenção do ex-deputado Alexandre Ramagem pelo serviço de imigração norte-americano na semana anterior. Ramagem, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe, vive nos Estados Unidos desde dezembro passado.
Em nota publicada na rede X, o órgão norte-americano afirmou que “nenhum estrangeiro tem o direito de manipular nosso sistema de imigração para burlar pedidos formais de extradição”.
Lula reagiu dizendo que o Brasil poderia aplicar o princípio da reciprocidade e expulsar agentes dos EUA lotados no país.
Retaliação brasileira
Dois dias depois, na quarta-feira, 22 de abril, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, informou à GloboNews que retirou as credenciais de um adido da Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) em Brasília. O Itamaraty divulgou comunicado declarando que a medida norte-americana não foi precedida de diálogo e confirmando a aplicação da reciprocidade.
Antecedentes de tensão
As medidas recentes somam-se a uma série de decisões adotadas por Trump desde que reassumiu a presidência, em janeiro de 2025:
- Tarifa de 50% sobre importações brasileiras, decretada em maio de 2025, sob alegação de perseguição a Jair Bolsonaro; a sobretaxa foi retirada em novembro.
- Investigação comercial aberta em julho de 2025 pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) sobre o Pix e a pirataria na Rua 25 de Março, em São Paulo.
- Sanções econômicas, em julho de 2025, contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, sua esposa e o Instituto Lex; as punições foram revogadas em dezembro.
- Revogação de vistos de Moraes, de outros ministros do STF e de ex-integrantes do Ministério da Saúde ligados ao programa Mais Médicos.
- Suspensão, em janeiro de 2026, da concessão de vistos de residência permanente a brasileiros e cidadãos de outros 74 países.
- Relatório do Comitê Judiciário da Câmara dos EUA, em 1.º de abril, acusando o Estado brasileiro de censura política; no mesmo dia, o Departamento de Estado manifestou “sérias preocupações”.
- Inclusão do Brasil, ainda em abril, na lista norte-americana de principais origens de substâncias para fabricação de drogas.
Breve distensão em 2025
Apesar dos atritos, Lula e Trump ensaiaram diálogo no segundo semestre de 2025. Os dois trocaram cumprimentos na Assembleia-Geral da ONU, conversaram por telefone e se reuniram pessoalmente em outubro, em Kuala Lumpur, durante a cúpula da ASEAN. Em seguida, Washington suspendeu a tarifa de 50% sobre carnes, café e outros produtos agrícolas brasileiros.
Imagem: Daniel Torok
Análises apontam vínculo frágil
Para Ricardo Caichiolo, professor do Ibmec Brasília, a aproximação nunca foi sólida e permanece “frágil e circunstancial”. Ele projeta aumento do atrito retórico, mas prevê manutenção pragmática dos laços econômicos.
O economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena avalia que críticas de Lula à política norte-americana para a América Latina e a chance de vitória de Flávio Bolsonaro em outubro podem estimular novos embates. Segundo ele, a Casa Branca pode intensificar o isolamento diplomático do Brasil.
Apesar das declarações, ambos os analistas consideram improvável uma ruptura ampla no curto prazo, embora temas sensíveis, como comércio e liberdade de expressão, sigam suscetíveis a escaladas.
Com informações de Gazeta do Povo
