A pré-candidatura do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) à Presidência da República reorganizou a disputa interna na direita para 2026 ao se colocar como alternativa ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O principal ponto de contraste entre os dois é a postura diante do Supremo Tribunal Federal (STF): enquanto Caiado defende diálogo institucional, Flávio acusa a Corte de ativismo e perseguição a lideranças conservadoras.
Caiado, lançado pelo PSD no fim de março, procura atrair eleitores já simpáticos ao PL apresentando-se como gestor experiente, antipetista histórico e adepto de um conservadorismo menos conflitivo. Em entrevistas, tem rechaçado a “política de gritaria e likes”, sem citar diretamente o adversário, e insiste que sempre respeitará o resultado das urnas — uma alusão ao questionamento feito por aliados de Jair Bolsonaro em 2022.
Já Flávio, que se apresenta como versão moderada do ex-presidente, mantém tom mais duro contra o STF. O senador critica decisões da Corte relacionadas ao 8 de Janeiro e alega haver injustiças contra a direita. Analistas, como o cientista político Adriano Gianturco, avaliam que o posicionamento contundente de Flávio reflete também a experiência pessoal com a prisão do pai.
Amnistia e riscos eleitorais
Para não se afastar totalmente da base bolsonarista, Caiado promete, caso eleito, conceder anistia ampla aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 — incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. A proposta, porém, é vista por especialistas como pragmática e pode ser explorada pelo PL para apontar uma suposta condescendência de Caiado com decisões controvertidas do STF.
O professor Ricardo Caldas lembra que o PSD adota linha conciliadora e que a estratégia de Caiado amplia o diálogo, mas pode afastar o eleitorado mais ideológico. O risco aumentou depois de o ex-governador condecorar publicamente o ministro Gilmar Mendes, gesto interpretado por críticos como tentativa de aproximação com a Corte.
Debate sobre limites do Judiciário
No Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, Caiado dividiu palco com o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG). Enquanto Zema defendeu prisão de juízes em casos de abuso, Caiado apontou o Senado como responsável por conter avanços do STF e afirmou que o impeachment de ministros é instrumento constitucional, mas não deveria ser tratado como tabu.
Apesar de participar de atos pela anistia e classificar algumas decisões do ministro Alexandre de Moraes como “vingança”, o ex-governador evita chamar o Supremo de “ditadura” e sustenta que eventuais correções devem seguir o devido processo legal.
Imagem: Reprodução
Cenário à direita
Dos oito pré-candidatos já colocados na corrida presidencial, sete buscam o voto conservador. Flávio Bolsonaro aparece como herdeiro natural do capital político do pai e principal antagonista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Caiado aposta no discurso de governabilidade, citando segurança pública, eficiência administrativa e previsibilidade econômica como marcas de sua gestão em Goiás.
A escolha de Caiado pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, sepultou a possibilidade de uma “terceira via” no partido. Kassab acredita que a direita tende a concentrar votos em Flávio, o que obriga Caiado a correr contra o tempo para ampliar sua base e tornar-se viável eleitoralmente.
Enquanto isso, críticas ao STF também começam a aparecer na esquerda. O ex-ministro petista José Dirceu defendeu reformas no Judiciário, e o presidente Lula sugeriu limite de mandato para ministros, além de questionar a atuação de Alexandre de Moraes em processos ligados ao caso Master.
Com visões distintas sobre o Supremo, Caiado e Flávio Bolsonaro disputam o mesmo eleitorado conservador, mas oferecem caminhos diferentes: conciliação institucional ou enfrentamento direto.
Com informações de Gazeta do Povo
